VOLTA À ILHA TERCEIRA

DOMINGO, 24 DE MAIO 2009

Cheguei ao fim. Fiz a volta em 9h40m07s. Num total de 82,830 km. Gastei 6.857 Kcal.
Quando estiver em condições hei-de fazer um relato da volta.
Foi uma experiência formidável.
Agradeço a todos os que torceram por mim.
Agora vou curar estas dores... Parece que fui atropelado por um camião.
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O dia começou ainda noite. 4h30m toca o despertador. Levanto-me e começo a preparação: pensos-rápido para os mamilos, fita polar no peito, vaselina nos pés e virilhas. Meias bem postas. Calções de licra (com reflectores). Camisola manga curta.
Apesar das horas tive direito a que me preparassem o pequeno-almoço. Panquecas com manteiga e marmelada.
Conduzo para o ponto de partida, o Relvão, a esta hora (5h00m) está mais trânsito do que eu imaginava e além disso os condutores estão cheios de adrenalina (e outras coisas). Tomo a decisão de adiar um pouco a partida. No rádio do carro ouço “gaivota” em três músicas diferentes, na voz da Amália Rodrigues, na voz da Dulce Pontes e na voz da Sónia Tavares. Qual a melhor?
Por ser noite quase esqueci o protector solar. Ainda a tempo besuntei-me com factor 50+ que bem me protegeu durante o dia. Eram 5h40m quando comecei a correr em direcção à Baía da Salga.
Mochila às costas. Garrafa com Isostar na mão. Vou vendo o amanhecer diferente enquanto não penso muito naquilo que faço. Olho para o cronómetro e confiro o passo: muito rápido, mas não consigo evitar. Estou fresco, o dia está fresco. Deixo-me ir.
Baía da Salga. (1h20m, 13Km) Tempo para tirar da mochila uma barra de cereais e um pacote de gel. Muito facilmente como os cereais e o gel, já em direcção ao Porto Martins.
Aparece o Joel, bicampeão nacional de Kicboxing, que me vai abastecendo em pontos chave ao longo do percurso.
Neste percurso esperava-me umas grandes subidas. E lá as fiz. Muito rápido, dizia eu de mim para mim, vou pagar isto mais à frente (e se calhar paguei). Mas o importante aqui foi a recuperação. Com pouco mais de 1h30m de corrida tinha recuperado a minha força mental. Agora tinha a certeza que ia conseguir (desde que não fosse atropelado).
E lá prossegui, as horas a passarem-se, os quilómetros também. O Filipe (continental) telefonou: «Força pá!» Energia melhor que o gel energético.
Vila Nova. (4h, 40Km) Metade da ilha corrida, já só falta metade, a pior metade, mas isso não é para pensar agora. Troco de calções e de camisola. Encho os depósitos de água e Isostar e continuo rumo às Quatro Ribeiras.
Preciso de mais forças, convoco a minha deusa.
Podiam ter feito isto plano. Sempre grandes subidas (é bom para os músculos) e grandes descidas (é bom para as articulações). Depois dos Biscoitos melhora, pensava eu cheio de esperança, mas não, é sempre a subir, embora menos inclinação.
E foi assim, sem muitas dores, mas sempre a subir, até à mata da Serreta, onde a minha sobrinha Joana me fez uma visita. Estive uns 20 minutos parado. Não sei se foi bom ou mau para as pernas.
É que a partir daqui tudo foi mais doloroso.
Agora é que dói a sério. Agora é que vou ver de que matéria sou feito.
O meu amigo volta a telefonar. «Ainda te consegues rir é porque ainda tas bom!» Eu é que já não sei o que é rir e o que é chorar.
Prá frente é que é o caminho. Tantas nuvens no céu e nenhuma se meteu à frente do sol.
Subida da Serreta. (7h, 60Km). Esta subida não era tão grande nem tão comprida, esticaram-na e inclinaram-na especialmente para mim. Que queridos.
Acabo todas as reservas. Por causa do cansaço, do calor e sei lá mais o quê, já não consegui comer mais nada, até o gel energético me dava vómitos. Faltavam uns 25 kms. Uns longos e compridos 25 Kms.
Doze Ribeiras. (8h, 70Km). A passada caí de ritmo vertiginosamente. Começo a andar a mais de 6 min/Km. E a partir do quilometro 78 a mais de 7min/Km.
Cinco Ribeiras. (74Km, 8h30m). Pensamentos filosóficos profundos: quem deu o nome a estas terras tinha falta de imaginação: “Quatro Ribeiras”; “Doze Ribeiras”, “Cinco Ribeiras”.
Aparece agora o Eliseu, disposto a correr comigo os últimos quilómetros. Rebocador de luxo, campeão Açoriano de K1 Kayak-Mar por 8 anos consecutivos e três vezes campeão nacional de K2 Kayak-Mar. Vamos ao meu passo (claro) que mais parecem passinhos de bebé.
A parte mais complicada do percurso, com o aproximar da cidade de Angra aumenta exponencialmente o trânsito. Quase que fui atropelado.
Meta à vista, cumprido o objectivo. “Eu não desejava a vitória, mas a luta.” (August Strindberg)
Paro o cronómetro.
Data: 24.05.2009 05.40
Nome: Volta à Ilha Terceira
Duração: 09h40m08s
Calorias: 6857 kcal
Distância: 82,830 km
Velocidade méd: 8,57 km/h
Velocidade máx: 14,4 km/h
Ritmo méd: 07:00 min/km
Ritmo máx: 04:10 min/km
FC média: 146 bpm
FC máxima: 176 bpm.
Agradeço à equipa de apoio, sem eles não tinha conseguido chegar a meio.
Durante esta aventura bebi uns 6 litros de água, uns 2 litros de Isostar, 5 pacotes de gel (70 ml), mal comi 3 barras de cereais e meia dúzia de bananas.
Agora é tempo de assimilar conhecimento, ver o que podia ter corrido melhor e depois pensar o próximo desafio…
Até lá, boas corridas.
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Afinal só bebi uns 5 litros de água. Só quando fui tirar o sistema da camelbak da mochila reparei que ainda tinha aproximadamente 1 litro.
Mesmo assim, entre água e Isostar bebi uns 7 litros de líquidos e não urinei nenhuma vez ao longo da prova. No final a balança dava uma diferença do inicio de menos 0,5 kg.
É no mínimo interessante.
Ricardo Baptista
Maio de 2009